Reaberta primeira Igreja Mariana do Brasil

Erguida a mando de Catarina Paraguaçu, a Abadia da Graça materializa a essência da história do país


Matheus Pastori de Araujo


Poderia ser facilmente um filme, um belo romance ou uma série, para que o leitor permaneça contemporâneo. A aparente simples construção localizada no coração do bairro da Graça guarda a imensidão e a beleza da história do Brasil. Remonta a um tipo de tempo longínquo que nos faz imaginar aquele cume de Salvador livre do trânsito, dos prédios e da inquietude moderna. Convido quem lê este Especial a fechar os olhos e embarcar conosco nesta pequena viagem.


Com certo esforço, é possível. Visualize aquele terreno sem as intervenções arquitetônicas, apague as imediações. Não há Vitória, não há Barra, não há Canela nem Campo Grande. Não há sequer Brasil, apenas uma vaga promessa dele. Apenas um Mundo Novo tomado por árvores frondosas e dominantes, animais silvestres e habitado por nada além do vento mais puro e dos seus legítimos e primeiros descobridores.


Sob este sol que nos acompanha desde o princípio, a areia amarela da Costa chega a brilhar de tão limpa, combinando harmoniosamente com rios fluidos e potáveis. Os alimentos são frutos tão naturais quanto possível, colhidos generosamente a qualquer tempo. Na terra onde tudo dá, Caminha descreveu um imenso e precioso paraíso tropical.


A carta ao imperador avisando das boas novas só não contava que o náufrago Diogo Álvares Corrêa seria o primeiro português a viver em terras brasileiras, por volta de 1510. Por acidente, é verdade. Achado desacordado em uma faixa de pedras rochosas das praias do Rio Vermelho, ele foi poupado depois do massacre de toda a tripulação que lhe acompanhava em uma embarcação francesa. Historiadores não chegaram a um consenso de como o português conseguiu sobreviver.


Muitos atribuem o feito a um tiro de revólver, disparado para o alto a fim de cessar os ânimos dos Tupinambás. Outros dizem ter sido pura compaixão. Para fins de nosso romance, ficamos com esta última hipótese. Fato é que Caramuru, como foi batizado pelos nativos, foi acolhido pela tribo e aqui permaneceu por mais de quatro décadas como um dos seus.


Tão assim que, nesse meio tempo, ele se apaixonou e tomou Catarina Paraguaçu, filha do chefe da aldeia, como sua esposa. Logo foi a vez dela mesma embarcar rumo à França, onde Caramuru tinha negócios com Pau-Brasil. Lá, em 30 de julho de 1528, batizou-se católica como Katherine du Brézil (Catarina do Brasil), seu nome cristão.


De volta ao Novo Mundo, de acordo com relatos do diário do padre jesuíta Simão de Vasconcellos, Paraguaçu teria sido contemplada com uma visão. Na profecia, um navio castelhano naufraga, mas uma mulher sobrevive à tragédia e passa a habitar entre os índios brasileiros. No sonho, a sobrevivente pede a Paraguaçu que “lhe traga para perto de si e lhe faça uma casa”.


A índia compartilhou o acontecido com o marido, a quem solicitou que buscasse a tal sobrevivente. Eis que é encontrada entre os Tupinambás uma imagem de Nossa Senhora, quem Paraguaçu identificou como sendo a mensageira da visão. Naquele mesmo tempo, foi dada providência para que se construísse o que é considerado o primeiro templo Mariano (dedicado a Maria) das Américas e, para muitos estudiosos, também a primeira igreja do Brasil, em honra de Nossa Senhora da Graça – como foi batizada a imagem.


O Papa Alexandre VIII se apressou a mandar tudo o que fosse necessário para que se erguesse a paróquia, enriquecida com muitas relíquias e indulgências. Para o historiador Christovão Ávila, descendente de Catarina Paraguaçu, ela era uma mulher de fibra. “É considerada a mãe das mães brasileiras e um símbolo de congraçamento racial”, afirma.


Paraguaçu morreu em 26 de janeiro de 1589 e foi sepultada naquela sua igreja, doada por ela mesma aos beneditinos do Mosteiro de São Bento. Até hoje, a Igreja da Graça permanece subordinada ao mosteiro, que guarda o testamento original da índia.


Neste enredo cheio de tudo que uma boa história merece, Caramuru e Paraguaçu, símbolos da nossa miscigenação, formaram a primeira família brasileira documentada. Eles tiveram nada menos que dez filhos, e se perpetuam pela mais antiga raiz genealógica de nosso país.


José Raimundo Lima, responsável pelo departamento de cultura da abadia, destacou que a igreja, após quatro anos sem visitação, foi reaberta mesmo antes da conclusão da obra, para sensibilizar os frequentadores e a comunidade do entorno. A abadia tem missas todos os domingos, às 8h. A restauração completa foi concluída com uma inauguração oficial em dezembro de 2019.

“Estamos muito alegres porque vimos o entusiasmo dos paroquianos, dos frequentadores que nunca deixaram de visitar o local”, José Raimundo Lima, integrante da igreja.


“Nós estamos muito alegres porque vimos o entusiasmo dos paroquianos, dos frequentadores que nunca deixaram de visitar o local. Antes da reabertura, chegamos a improvisar uma capela na sala de aula da Faculdade da Terceira Idade que funciona aqui e, mesmo assim, sempre tivemos uma boa movimentação”, afirmou José.


Portanto quem também se apaixonou e se interessa por conhecer mais da jornada desse casal épico, já pode visitar a Igreja da Graça, que guarda toda essa herança imensurável. A devoção de Paraguaçu à Mãe de Jesus foi imortalizada em uma pintura do artista Manoel Lopes Rodrigues, feita em 1881, que pode ser vista em destaque no teto do templo. Inclusive, nas horas do costume, voltou a se ouvir os sinos dobrarem e ecoarem por aquele lugar, como que se nos lembrassem da importância de onde estamos pisando.

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