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Fernando Machado: por que não ir mais além? Florescer


Fernando Machado é colunista da Let's Go Bahia

Fernando Machado Colunista da Let's Go Bahia


“No lo que pudo ser: es lo que fue. Y lo que fue está muerto” - Octavio Paz, “Lección de Cosas”, 1955

Nos longos invernos vividos em Viena, que estreitavam a primavera, quase dava para notar, dia a dia, o crescimento das plantas do jardim; tinham pressa para garantir sua sobrevivência, sabiam que seu tempo de florescimento havia sido roubado pela extensão do inverno.


Em hebraico, o florescer se diz sha qedh, ou shaked, “aquele que desperta”. Na sua raiz, coincide com o verbo apressar, simbolizado na amendoeira, a primeira a se despertar do sono invernal, para florescer antes do inverno seguinte. O shaked representa uma visão de esperança de solução ao inverno das adversidades, à sensação de viver no caos, ao urgente resgate da cor, beleza e energia transformadora da vida.


Temos um DNA 98.4% idêntico ao dos chipanzés e bonobos. A que se pode creditar nossa diferenciação e realizações? Por que eles continuam pulando de galho em galho enquanto viajamos pelo cosmos? Linguagem complexa, tamanho do cérebro e outras capacidades nos propiciaram comunicação, conexão mental e cooperação, com base em conceitos e ideias lastreados por sucessivos desenvolvimentos de conhecimentos verificáveis. A materialização desses conceitos e ideias satisfaz nossas necessidades, curiosidades, nos diferencia dos chipanzés e faz a humanidade avançar. Mas isso está ruindo.


Neste momento de caos generalizado, talvez a nossa única saída seja se espelhar na urgência de florescer da amendoeira, fazendo florescer a nossa organização social e econômica. As razões da derrocada das democracias e economias são múltiplas, mas o espaço nos limita a analisar como contribuímos pessoalmente para isso.


Vivemos uma situação disfuncional na qual existe um claro descompasso entre o potencial de aplicação de nossos conhecimentos avançados em Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs), de outras inovações radicais em constante aceleração, e a sua utilização, o nosso “humanware”. Essa disfuncionalidade questiona o conjunto de narrativas ficcionais que guiam nossas vidas, desequilibra os atuais sistemas sociais e econômicos e representa um obstáculo para o avanço da espécie humana.


Por que será que uma época dourada do nosso progresso tecnológico está gerando caos na humanidade? Por que um conjunto tão poderoso de TICs, que deveria estar nos diferenciando mais ainda dos chipanzés e bonobos, está nos tornando cada vez mais parecidos a eles?


As tecnologias são sempre eticamente neutras, e passiveis de abusos. A internet profunda e os ataques cibernéticos fazem da segurança cibernética, juntamente com os riscos geopolíticos, ambientais e as moribundas democracias, o maior desafio atual para a humanidade.


Porque nos limitamos a usar as TICs para satisfazer só nossas necessidades básicas de agrupamento e de diferenciação dentro do grupo, desprezando aquelas mais elevadas, de autodesenvolvimento, o ouro potencial das TICs? Recebemos conteúdos parciais, fragmentados - Deus nos livre de textões - aos quais não temos condições de dar sentido, por nos faltar a noção da importância do conhecimento, e, consequentemente, o contexto que formata e estrutura o conteúdo. O que nos permite aprender para saber, integrar, lembrar e atuar.


Vivemos duas vidas paralelas: uma, real, e outra, representada por avatares nas redes sociais

A importância do conhecimento faleceu, ensanduichada, de um lado, pela crescente ignorância e péssima educação. Por outro, pelas narrativas ficcionais que aninham as fake news, incluindo os fundamentalismos religiosos e do politicamente correto.


Como resultado, onde prevalecem a ignorância, o narcisismo, o xenofobismo, ortodoxias fossilizadas, temperados com o medo, infundido por lideranças populistas e fundamentalismos, agrupamo-nos em tribos como tábua de salvação. Qualquer divergência de opinião é uma oportunidade para dar vazão às ansiedades sobre o futuro incerto e frustrações, gerando guerras de pixels em letras maiúsculas.


Vivemos duas vidas paralelas: uma, real, e outra, representada por avatares nas redes sociais, hiperpoliticamente corretos, apavorados com o risco de viralização de qualquer escorrego que nos destrua a imagem.


Neste mundo complexo e tribal, os mais racionais poderão terminar como os Neandertais, extintos. O resto da humanidade, depois de algumas lutas de autodestruição, tende a seguir rapidamente o mesmo destino. A não ser que adotemos o shaked e, individual e coletivamente, atuemos para enfrentar o caos atual com mudanças radicais na nossa organização social, mais afinadas com o verdadeiro potencial das tecnologias.


Isso implica realizar uma urgente revisão dos fundamentos do nosso mundo presumido, do sistema educacional, de crenças e valores, de narrativas de vida, da organização social e econômica existente, das nossas mentes.


Significa adotar, a cada dia, a velha utopia da autogestão. Reconstruir, de baixo para cima, nossa vida pessoal e social, colocando a felicidade – outra falsa utopia – como eixo central das organizações sociais, dos sistemas econômico-sociais, cultural e de valores.


Privilegiando a ética, o bem comum, criando espaço para o conhecimento e o ócio criativo, para a expansão da consciência humana, para o apoio à inovação. Sem ideologias obsoletas, falsas necessidades de consumo e do sistema de valores sociais associado. Mãos à obra!