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ESCOLHENDO COM SABEDORIA

Por: Leonardo Salgado


Quando procuramos um médico, fragilizados com algum sintoma, com medo de alguma doença e sem entender o que está acontecendo com o nosso corpo que já não está se comportando como de costume, procuramos uma pessoa de grande saber, que através do seu conhecimento científico possa nos ajudar a resolver o nosso problema de saúde, seja ele qual for. Tudo certo, mas nem sempre essa ajuda está baseada em um conhecimento científico.


O que eu vou dizer agora pode chocar muitas pessoas e deixar outras frustradas, mas nem tudo o que se faz na Medicina é baseado em evidências científicas. Algumas condutas comuns no meio médico se perpetuam e até ganham status de “tradicionais” sem nunca ter se comprovado eficientes, elas apenas parecem ser eficientes.


Incomodado com essa realidade, o Conselho Americano de Medicina Interna – American Board of Internal Medicine (ABIM) começou em 2012 uma campanha objetivando diminuir a utilização de exames e tratamentos médicos desnecessários e sem eficácia comprovada a fim de aumentar a segurança do paciente e evitar desperdícios. Essa campanha se chamou Choosing Wisely, que pode ser traduzida como “Escolhendo com Sabedoria”. Rapidamente, a campanha que começou nos Estados Unidos se expandiu para dezenas de países, incluindo o Brasil.


Em minha opinião, o sucesso dessa campanha se deve ao fato de, ao invés de lançar críticas às práticas fúteis adotadas por algumas especialidades, ter sido solicitado aos médicos especialistas, através de suas associações, que listassem condutas médicas presentes no seu cotidiano e que não deveriam continuar sendo adotadas pela completa falta de evidências científicas da sua eficácia. Começaram então a surgir as listas de recomendações das sociedades de diversas especialidades do que não se deveria fazer. A missão da Choosing Wisely é promover o diálogo entre o médico e o paciente, ajudando-o a escolher cuidados que sejam suportados por evidências científicas, não duplicados de um tratamento já recebido, livres de danos e verdadeiramente necessários.


É o paciente o protagonista que escolhe os cuidados e o médico é quem o apoia na escolha, levando a ele as informações adequadas. Atualmente, mais de 70 sociedades de especialidades já fizeram mais de 400 recomendações de exames ou tratamentos que não devem ser indicados em situações nas quais antes eram rotineiramente indicados.


Sou geriatra e fiquei muito feliz quando em 2018 a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG) fez a sua lista de recomendações sábias e entre outras lá estava a orientação de não prescrever polivitamínicos, reposição vitamínica ou hormonal para idosos assintomáticos.


Recordo que quando li a lista da SBGG, lembrei-me de alguns pacientes que em uma primeira consulta se mostraram bem chateados por eu não prescrever um suplemento vitamínico. Este é um dos maiores mitos em Geriatria, o de que todo idoso precisa de suplementação vitamínica. Não há nenhuma evidência científica de que o uso de polivitamínicos ou suplementos vitamínicos por idosos assintomáticos melhora a sua condição de saúde, mas, ainda assim, milhões de pessoas pelo mundo tomam esses suplementos acreditando que estão promovendo saúde. Assim como esta, temos várias outras condutas bem tradicionais que hoje estão sendo questionadas, como exames de rastreio de câncer para idosos com expectativa de vida menor que 10 anos, listas enormes de exames cardiológicos “de rotina” para pacientes assintomáticos, listas extensas de exames pré-operatórios para cirurgias de baixo risco em pacientes saudáveis, o uso inadequado de remédios, entre outros.


A notícia boa nisso tudo é que a sociedade médica está, aos poucos, deixando para trás velhas práticas ineficazes e está adotando novas escolhas sábias que promovem mais segurança e qualidade de vida para os pacientes.