Dr. Leonardo Salgado: você está preparado para morrer hoje?


Leonardo Salgado é colunista da Let's Go Bahia

Dr. Leonardo Salgado Colunista da Let's Go Bahia


Se o título desta coluna te chocou, eu gostaria de te lembrar que você vai morrer, provavelmente não será hoje, mas você vai morrer, alguém que você ama também vai morrer, e você não pode fugir disso. Costuma-se dizer que esta é a única certeza da vida.

Na sua evolução, o homem teve consciência de que era um ser finito há cerca de 50.000 anos, e isso o tornou único no planeta, de lá para cá, essa consciência criou a cultura e transformou a humanidade.


Mas se todas as pessoas no planeta sabem que um dia irão morrer, por que ninguém se prepara para isso? O problema é que saber que iremos morrer algum dia no futuro não nos afeta o suficiente para pensar sobre isso, e saber que isso poderá acontecer em pouco tempo nos apavora a ponto de nos paralisar.


No Brasil, morrem por ano cerca de 1.300.000 pessoas, e dessas, aproximadamente, 900.000 morrem de câncer ou de doenças crônico-degenerativas; na prática, essas pessoas tiveram uma morte anunciada, pois receberam um diagnóstico de alguma doença grave que seguiu o seu curso natural e progrediu até a morte. Mas será que essas pessoas aproveitaram a oportunidade e conseguiram ressignificar a sua existência e, assim, morrer com a dignidade desejada? Os profissionais de saúde que os acompanharam em suas jornadas estavam preparados para oferecer a eles alívio para os sofrimentos físicos, emocionais, espirituais e sociais? Existem maneiras diferentes de morrer.


Há quem defenda um conceito de “bem-morrer” como uma morte com o mínimo de sofrimento possível, com tempo suficiente para a pessoa resolver os seus relacionamentos pendentes com os perdões e para os agradecimentos necessários, além de estar cercado pelas pessoas que ama. Talvez esta definição se encaixe no meu “bem- morrer” e de muitas outras pessoas, mas, com certeza, não serve para todos, pois cada pessoa é única e, assim, cada um pode idealizar de uma maneira diferente o seu “bem- morrer”. O fato é que na nossa sociedade as pessoas estão morrendo de uma maneira completamente diferente da que idealizaram e com muito mais sofrimento do que seria inevitável.


Neste contexto, destacam-se os cuidados paliativos, que são cuidados assistenciais com o objetivo da melhoria da qualidade de vida de uma pessoa doente e sem a probabilidade de cura. Quando questionados como e onde desejam morrer, a maioria dos brasileiros responde que em casa, sem dor e com a família ao seu lado, mas a maioria deles morre nos hospitais e, muitas vezes, em unidades de tratamento intensivo, longe da família.


Esses pacientes não tiveram contato com equipes de cuidados paliativos, profissionais qualificados para acompanhá-los e ajudá-los nessa jornada, pois no Brasil temos somente cerca de 110 serviços de cuidados paliativos associado à Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP), o que é muito pouco para um país de tamanho continental. Para efeito de comparação, nos EUA são cerca de 1.700 serviços.


A boa notícia é que esta realidade está mudando. O número de profissionais de saúde interessados em Medicina Paliativa vem crescendo consistentemente e a internação domiciliar já é uma realidade nas principais cidades do Brasil, além disto, hoje, qualquer pessoa com mais de 18 anos já pode fazer as suas Diretivas Antecipadas de Vontade (DAV), um documento no qual o paciente registra um conjunto de vontades prévias, e expressamente manifestadas, sobre cuidados e tratamentos que o mesmo deseja ou não receber no momento em que estiver incapacitado de manifestar a sua vontade.


Então, quando um paciente se encontra diante de uma doença grave e terminal, se ele tem a oportunidade de ser acompanhado por profissionais capacitados para auxiliá-lo, ele tem boas chances de fazer as suas DAV, reconciliar as suas relações, ter os seus sofrimentos físico, emocional, espiritual e social aliviados, e, com o apoio de sua família, ele poderá morrer com dignidade.


Vale lembrar que um percentual menor de pessoas não tem a sua morte anunciada com um diagnóstico, e que todos nós estamos sujeitos a morrer a qualquer momento, então, que tal resgatarmos as nossas relações a partir de hoje, com todos os perdões e agradecimentos necessários? Pois a morte, mesmo com toda a dignidade, ainda é triste, mas a vida é bela.

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