Av. Professor Magalhaes Neto, 1856, sala 603, Caminho das Árvores, Salvador Bahia.

CEP: 41810-011

Telefone:  +55 71 ‭3042-2440 

Nossos Contatos:            comercial@letsgobahia.com.br            financeiro@letsgobahia.com.br               redacao@letsgobahia.com.br 

  • Branco Facebook Ícone

©2019 V2M Editora Ltda.

Timbrado-Baseforte.png

“De hoje a oito”

Por: Maria Medeiros


Cresci ouvindo: “O baiano é assim: informal e não muda. O problema é cultural!”. Em minha percepção, essa crença precisa ser reconsiderada. Primeiro, porque a cultura não é imutável. A mudança cultural se dá a partir de novas formas de pensamento e comportamento dos seres sociais que, a todo o momento, estão acumulando experiências e se adaptando a novas realidades. A cultura, portanto, está em constante desenvolvimento e transformação. Segundo, porque a informalidade não é uma característica comportamental necessariamente negativa.


É certo que a informalidade é um traço característico da cultura baiana e ela está relacionada à capacidade de improvisar e, arrisco até a dizer, à genialidade, ao jeito “Glauber” de perceber e fazer as coisas. O baiano tem um modo distinto de pensar e agir, o qual considero oblíquo, transversal, criativo, subjetivo e, essencialmente, acolhedor.


Justamente por ser baiana, fiz questão de que este texto acolhesse distintas percepções sobre o nosso comportamento. Decidi, então, interceptar “diplomaticamente” um amigo e pedir sua contribuição. Em verdade, queria um olhar de alguém que não fosse baiano e com amplitude cultural e analítica para tecer reflexões, não tendenciosas, sobre o assunto. Agradeço igualmente a ele por ter batizado o texto com um título tão sugestivo.


A expressão “de hoje a oito” foi escolhida por conseguir traduzir a “objetividade oblíqua” do nosso modo de pensar. “A musicalidade e a gentileza do baiano em estabelecer um prazo para algo, sem a secura da objetividade de dizer ‘daqui a sete dias’ ou ‘daqui a uma semana’, reforça a singularidade de seu pensamento. Ao incluir o “hoje”, o baiano considera o dia a ser vivido e, ao completar a expressão com “oito”, ele contempla um dia que haverá de viver. O jeito de falar e as expressões usadas pelos baianos são floreados e coloridos. A informalidade torna a vida mais fluida, leve. É mais democratizante do que desrespeitosa”, concluiu esse amigo.


A meu ver, a informalidade e o nosso jeito singular de pensar e agir, usados na dosagem certa e avaliando-se bem os contextos sociais e profissionais, constituem uma importante fonte “soft power”. Esse é um termo bastante usado nas Relações Internacionais que, de modo muito simplificado, refere-se à capacidade de um país exercer influência sobre outros, com base em fontes de poder intangíveis como a cultura, a ideologia, o desenvolvimento técnico, entre outras.


Se usado com inteligência e equilíbrio, o nosso “soft power”, traduzido em autenticidade, criatividade e simpatia, pode ser utilizado com habilidade para encantar e promover a aproximação entre as pessoas e, até mesmo, ser instrumentalizado pelas organizações para estreitar os laços com seus colaboradores e clientes, facilitando as negociações e gerando oportunidades. Em excesso, a informalidade e a falta de objetividade podem causar constrangimentos e mal-entendidos, o que pode resultar perda de credibilidade, tanto em nível social quanto profissional.


A informalidade e o nosso jeito singular de pensar e agir, usados na dosagem certa e avaliando-se bem os contextos sociais e profissionais, constituem uma importante fonte “soft power”.