Como menos pode ser mais?

Por Carla Visi


Em tempos de crise ambiental, sabemos que todo o impacto das atividades humanas tem um objetivo comum: o consumo. São mais de sete bilhões de pessoas que precisam se alimentar e matar a sede, vestir, morar, se deslocar, respirar... em síntese, viver. O fato é que há um grande desequilíbrio nesse consumo, pois 20% da humanidade consome 80% de tudo o que se produz. E o pior é que boa parte consome sem critério, gera resíduos e desperdício. Por isso surgiu um apelo em torno do Consumo Consciente. Esse consumidor analisa o impacto do produto desde a sua origem até o seu descarte, mas tudo começa em uma simples pergunta: eu preciso realmente comprar isso? Mudanças de hábito de consumo são fundamentais para garantir a viabilidade da vida humana na Terra, e alguns movimentos fazem parte dessa tendência necessária, entre eles estão a Simplicidade Voluntária e o Minimalismo.


Em 1936, o filósofo norte-americano Richard Gregg (1885-1974) introduziu o conceito de “Simplicidade Voluntária” em um artigo publicado na revista indiana Visva-Bharati Quaterly. Para o autor, a Simplicidade Voluntária era uma forma de reagir ao consumismo então emergente nos EUA, contrariando a ideia de Henry Ford de que a civilização só progride através do aumento do número dos desejos das pessoas e, claro, da sua satisfação. Nas suas próprias palavras, a Simplicidade Voluntária significa “unidade de objetivos, sinceridade e honestidade interior que evita a desordem exterior associada ao acúmulo de posses irrelevantes para o objetivo principal da vida”. Gregg não defende o ascetismo como finalidade, mas uma forma de vida simples, sem procurar acumular bens materiais, apesar de compatível com o mundo moderno.


A essência desse propósito é muito antiga. Há exemplos tanto no domínio secular quanto no religioso, mas as razões que nos motivam agora são novas. As razões plenamente justificadas para nos preocuparmos com o paradigma do desenvolvimento moderno, baseado na produção e aquisição indiscriminada de bens de consumo, estão na real possibilidade de exaustão dos recursos básicos para a vida humana na Terra. Os recursos naturais são finitos e, como sabemos, a população mais que duplicou em apenas cinco décadas. Éramos 2,5 bilhões em 1950 e chegamos à virada do milênio com a marca de seis bilhões de habitantes.


Como um reflexo das questões ambientais que ficaram mais evidentes a partir da década de 1970, em 1981, Duane Elgin escreveu um livro cujo título “Simplicidade Voluntária” sugeria viver melhor com menos. Vida simples ou simplicidade voluntária seria um estilo de vida no qual os indivíduos escolhem conscientemente minimizar o consumo. Os seus adeptos, por diferentes razões - espiritualidade, saúde, qualidade de vida, qualidade do tempo com a família e amigos, redução do estresse, preservação do meio ambiente, justiça social ou anticonsumismo -, optam por viver com plenitude o que realmente é importante.


De fato, é impossível viver sem qualquer tipo de consumo e sem gerar impacto no meio ambiente, mas a grande diferença entre consumo e consumismo está na qualidade do ato de consumir. O consumista, normalmente, compra aquilo que não precisa e de forma exagerada. Então, como ter essa percepção diante de tantas pressões midiáticas criando necessidades irreais? A cultura do consumismo vende a ideia da vergonha e do sentimento de inferioridade em não ter algo que essa cultura determina como crucial. As publicidades convencem o indivíduo de que beleza, felicidade e saúde se encontram nas diversas prateleiras das lojas do mundo real e virtual. A cura para esta loucura do consumismo está na consciência. Não significa deixar de comprar, mas significa deixar de buscar a felicidade nas compras. O consumismo nos distrai e preenche todas as horas do dia, pois trabalhamos mais para ganhar dinheiro para gastar mais, adquirindo coisas que muitas vezes nem teremos tempo de usufruir. A vida simples é essencialmente uma escolha e não tem nada a ver com “voto de pobreza”.


Muitos já ouviram falar em Minimalismo nas artes e na decoração, mas em tempos de sustentabilidade, o Minimalismo ganhou outra dimensão e que tem tudo a ver com a Simplicidade Voluntária. Minimalismo significa simplificar a vida eliminando os excessos e mantendo apenas o que é essencial, segundo os escritores Joshua Fields Millburn e Ryan Nicodemus, criadores do movimento “Os Minimalistas”, no Twitter.  O documentário “Minimalism: A Documentary About the Important Things” retrata o lançamento do livro de Joshua e Ryan por várias cidades dos Estados Unidos e compartilha a história de pessoas que decidiram viver apenas com o essencial. Ryan explica que não é uma competição sobre quem tem menos coisas e completa: “Ao contrário, queremos mais: mais tempo, mais espaço, mais paixão, mais experiências. Limpamos a bagunça do caminho da vida para sermos mais livres”. De acordo com a escritora norte-americana Francine Jay, autora de “Menos É Mais: Um Guia Minimalista para Organizar e Simplificar sua Vida”, livro considerado a “Bíblia” do Minimalismo, o minimalista valoriza as experiências e dá menos importância às posses materiais.


Minimalismo em três passos:


O primeiro passo é liberar espaço. Casas minimalistas têm poucos objetos. Poucos móveis, poucos utensílios de cozinha, poucas roupas, sapatos e acessórios, menos livros e objetos de decoração, sem automóveis nem depósitos cheios de quinquilharias. Não existe uma regra. O que você elimina e o que permanece são decisões pessoais.


O segundo passo é ter menos atividades, ou melhor, eliminar atividades que não fazem sentido para a nossa vida. A regra é aprender a dizer não para aquilo que não é realmente importante e priorizar o tempo no trabalho que realiza com prazer e nas atividades que agregam valor como estar com os amigos e a família. O excesso de atividades gera cansaço e estresse, além de reduzir a qualidade do que fazemos.


O terceiro passo é reduzir despesas. Como a cultura do consumismo é pautada em forjar necessidades irreais, estar atento às nossas prioridades nos ajuda a definir melhor onde podemos e devemos investir o nosso dinheiro. Fica-se imune aos sedutores equipamentos eletrônicos, liquidações e promoções “leve 3, pague 2”, planos de serviços que você jamais vai usar. Analisar com bom senso nos ajuda a discernir o essencial do supérfluo. Pessoas são mais importantes que coisas.


A vida simples ou minimalista permite desenvolver os valores da moderação material, da vontade e do autocontrole, promove a consciência ecológica e a percepção da dimensão humana na ordem universal, além de nutrir a sabedoria de ser e estar no mundo. Talvez essas iniciativas individuais não resolvam os problemas da pobreza, as desigualdades sociais e econômicas, os impactos do consumismo, a produção de resíduos e a escassez de recursos. Em síntese, elas não solucionam o problema da degradação ambiental, mas, sem dúvida, contribuem para uma perspectiva de sustentabilidade na Terra. Independentemente de ser minimalista ou não, sempre dá uma sensação de leveza quando fazemos uma limpeza na casa e doamos o que não nos serve e que pode ser útil para alguém, e ainda ter a coragem do desapego e jogar fora as tralhas sem qualquer serventia. Inclusive a ausência dessa capacidade de se desfazer daquilo que é inútil foi identificada como um distúrbio psicológico, a Síndrome dos Acumuladores, que pode ser o tema do nosso próximo texto.

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