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Ajayô, Candeal!

Conheça a comunidade em que Carlinhos Brown começou a fazer história


Matheus Pastori de Araujo


A bem da verdade, nada na Bahia é simplesmente uma coisa só. Nesta terra do sincretismo de todos os santos, não é exagero dizer que cada canto de nosso Estado guarda a sua particularidade, o seu gracejo, o seu misticismo, a sua lenda, que, bem, os tornam baianos legítimos. E tudo isso vai no embalo dos ritmos, especialmente nesta primeira capital do Brasil, talvez a mais cantada, declamada e descrita em verso, prosa e talento deste país para além-mar.


Melodicamente, a introdução acusa o nome que estampa esta edição do nosso Especial Bairros. A comunidade do Candeal é uma das mais antigas de Salvador. É testemunha e, ao mesmo tempo, agente das transformações que vêm ocorrendo ao longo da sua própria história e daquelas imediações. Na sua origem, há quase trezentos anos, a comunidade se caracterizou por ser um local de refúgio para escravos que conquistavam a sua liberdade.


Por essa influência, ainda é símbolo de resistência ao preconceito, à opressão, à exclusão social e econômica. Durante séculos, a comunidade se manteve íntegra enquanto se transformava, naturalmente, miscigenada pela nossa tão conhecida brasilidade. De origem matriarcal, o Candeal foi criado a partir da união de Manuel Mendes e Josefa de Santana, negra liberta da Costa do Marfim que chegou ao Brasil em 1769. Ela veio em busca dos parentes, escravizados e enviados para as colônias. Conta a história que a família comprou a “Roça Candeal Pequeno”, local que, posteriormente, se tornou um “quilombo urbano”, onde Dona Josefa comprava e libertava negros e acolhia os fugitivos.


“Salvador, oficialmente, não tem bairros, o que dificulta a divulgação de informações. A gente perde dados do censo demográfico e isso é sério. Não há dados oficiais que sirvam de base para a promoção de políticas públicas nem que possam ser divulgados para empresas. Recentemente, o Ministério Público nos perguntou o número de crianças nos bairros para saber quantas precisavam de creches, por exemplo. Oficialmente, não tínhamos esse dado”, diz André Urpia, pesquisador e ex-coordenador de Disseminação de Informações do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).


O Candeal é uma dessas regiões que, conforme o crescimento rápido e exponencial da população soteropolitana, ainda não possuem, de papel passado, o título à altura do seu tamanho e importância histórica e cultural. A comunidade pode ser dividida em duas partes: O Candeal Pequeno, habitado por famílias de baixo poder aquisitivo, e o Candeal Grande, que concentra grandes prédios de classe média.


São, atualmente, cerca de 1.800 famílias, 9.300 pessoas e quatro associações de moradores. Cento e quarenta e dois empreendimentos comerciais, quatro praças públicas, um campo de futebol, uma quadra de esportes, uma escola de música e tecnologias, quatro estúdios de gravação, uma cooperativa de reciclagem de óleo residual de cozinha, uma escola de inglês, uma escola infantil de período integral e um posto de saúde.


É nessa atmosfera que nasce um dos maiores ícones da axé music: Carlinhos Brown. E, junto com ele, a vontade de mobilizar e modificar a comunidade que até então possuía grandes índices de desemprego e baixa renda. Identificando o potencial criativo do Candeal e o dinamismo do local e de seus moradores, Brown iniciou o seu trabalho educativo, compartilhando conhecimentos e tornando-se um exemplo de compromisso com a realidade social. Assim, a partir do ensino do tambor, ícone de libertação dessa comunidade, nasceu o movimento percussivo “Vai Quem Vem”: laboratório de ritmos, conceitos, de estética e criação de novos instrumentos. Desse movimento surgiram outros grupos musicais como os Zárabes, Bolacha Maria e a Timbalada, um dos mais importantes da cultura afro-baiana.


“A minha relação com a música sempre me aproximou muito das questões sociais. Todos os grupos que criei sempre tiverem em sua formação crianças e jovens carentes de Salvador, principalmente do Candeal Pequeno. Em 2002, implantei no bairro o projeto “Tá Rebocado”, de urbanização e saneamento do Candeal, que recebeu, no mesmo ano, o Certificado de Melhores Práticas do Programa de Assentamentos Humanos das Nações Unidas. Em 1994, criei a Pracatum”, relata nosso Brown, com orgulho.


Assim, para dar continuidade à luta pelo desenvolvimento socioeconômico do Candeal, em 1994, como disse o “cacique”, foi fundada a Associação Pracatum Ação Social, que desde então vem trabalhando ao longo desses anos para garantir cidadania e melhores condições de vida para os moradores. “A Pracatum pensa a música em sua dimensão rítmica e cultural, promovendo a inclusão socioprodutiva dos jovens, capacitando-os para o mercado profissional. Por aqui já passaram cerca de 7.000 alunos nos cursos de música e tecnologias. Sendo eles: Percussão, Produção Cultural, Processos Fonográficos, Gravação Digital, DJ, Gestão de Mídias Sociais, Design, Audiovisual, entre outros”, resume Selma Calabrich, atual diretora-executiva do projeto.


Sob esse toque forte dos tambores, aquele terreno acidentado de altos e baixos, ruas e vielas vai se colorindo e se empoderando, unindo o dom aos atabaques e, assim, dia após dia, retroalimentando a fantástica fábrica desta Bahia sonora. Se ali antes servia de refúgio a quem porventura tinha de fugir, hoje se tornou caminho para a ascensão de astros que brilham, livres, para o mundo ver, ouvir. E cantar. E sonhar!