A paixão pelo estardalhaço

Por: Claudia Giudice


Caí em tentação. Abri o computador e escrevi um texto longo e razoável falando de tradição e cultura na Bahia. Tinha citações. Análises. Todo errado. Esse não é o lugar de fala da Let’s Go. Com coragem, o deletei. E decidi começar de novo com aquilo que importa quando falamos de cultura e tradição: a emoção e a memória que ambas produzem.


A primeira vez que ouvi falar de cultura baiana foi no pré-primário. A professora de canto do Externato A Formiguinha fez um esforço danado para ensinar a minipaulistada a cantar, com afinação, o clássico de Dorival: “Minha jangada vai sair pro mar/ Vou trabalhar, meu bem-querer/ Se Deus quiser quando eu voltar do mar/ Um peixe bom eu vou trazer/ Meus companheiros também vão voltar/ E a Deus do céu vamos agradecer”.


Deus, peixe, jangada, mar… Que lugar é esse? Pensava do alto dos meus cinco anos, até então vividos em uma São Paulo provinciana. A segunda canção, de outro baiano, esse cabeludo, aprendi no rádio. Tinha seis anos e adorava os versos que diziam: “Caminhando contra o vento/ Sem lenço e sem documento/ No sol de quase dezembro/ Eu vou”.


Achava que devia ser bom poder ser livre para andar por aí. Mas absolutamente me eletrizava com o trecho que dizia: “Eu tomo uma Coca-Cola/ Ela pensa em casamento/ E uma canção me consola/ Eu vou…”. Quem é esse cara que, como eu, gosta de beber Coca Cola e vai? Dorival, Caetano…


De novo na escola, dessa vez no ginásio, me apresentaram a um homem que mudou minha vida. Jorge. Jorge Amado. Graças a ele, em julho de 1982, embarquei em uma excursão rumo a Salvador decidida a conhecer Pedro Bala, Flor, Vadinho, Camafeu de Oxóssi, Mãe Menininha do Gantois. Jorge Amado era meu herói, meu mito, meu exemplo. Como ele, eu queria ser jornalista, escritora e baiana. Como ele, eu era comunista. Com ele, viajei para as Terras do Sem Fim, para o Mar Morto. Acompanhei e chorei a morte de Quincas Berro D’Água. Graças a ele, descobri que havia um lugar cheio de tradição, encanto, música, poesia, teatro e paixão. Com ele, fui crescendo e ligando pontos.


Cultura era um grande caldeirão. Nele cabiam os versos satíricos de Gregório de Matos, o Boca do Inferno, que eu adorava ler para aprender novos palavrões e obscenidades. Nele estavam as vozes de Gal e Bethânia, duas musas, duas deusas, que cantavam tudo aquilo que batia no meu coração. Nele cabia o barroco, que enfeitiçava meus olhos com suas voltas e revoltas douradas. Nele guardava-se também a tradição e o axé, que descobri nos livros e nas imagens do belga-baiano Pierre Verger, o primeiro a me mostrar as tradições do candomblé. A visita de 1982 durou poucos dias, mas nunca mais consegui me livrar, graças a Deus, do visgo mole, do encanto, do amor que a Bahia de Todos os Santos gestou em mim.

Não sei sambar, mas foram me chamar. Muitas vezes voltei à Bahia para ver, aprender e um dia, definitivamente, ficar. Em breve, completarei 10 anos com CEP baiano. Hoje, posso dizer que entendo um pouco mais da tradição e da cultura desta terra que gerou samba, literatura, arte popular, bossa nova, Tropicália, arquitetura, poesia, tradição, Carnaval e axé.


Outra vez, a emoção me tirou do lugar-comum ao ler o texto seguinte: "Da vista de São Salvador que a gente enxerga de bordo tem um pedaço bem no centro em que as casas se amontoam num estardalhaço de janelas, andares, telhados, parece mentira... não é mentira não, é estardalhaço. Gosto de banzar ao atá pelas ruas das cidades ignoradas... aqui a impressão de estardalhaço continua. Parece incrível que se tivesse construído uma cidade assim... Ruas que tombam, que trepam, casas apinhadas e com tanto enfeite que parecem estar cheias de gente nas janelas, o barulho nem é tamanho assim, porém dá a impressão de enorme, um enorme grito. A sensação de simultaneidade é feroz, lembra cinema alemão”.


O relato publicado no livro “Turista Aprendiz”, do escritor paulistano Mário de Andrade,  traduz para mim a alma da primeira capital da América Portuguesa, do centro político e econômico colonial do Brasil durante o auge da produção açucareira, do primeiro porto de navios negreiros, da cidade do maior Carnaval da Terra. O que Mário descreve foi exatamente o que senti quando aqui cheguei em 1982, aos 16 anos, vindo de balsa de Itaparica. Como ele, eu amava, até então, sem conhecer, esse estardalhaço de janelas e gente. Em novembro de 2019, meu filho, Francisco, concluiu um projeto de monografia apresentado à eletiva de Literatura dos Silenciados, do curso de Pesquisa Autoral do Colégio Santa Cruz, de São Paulo. O tema escolhido foi “Percussão repercussão: blocos afro e utopia no Carnaval de Salvador”. Para minha feliz surpresa, Chico recuperou o texto de Mário para explicar Salvador, seu amor, o Carnaval, a cultura e a tradição desta cidade.


Trinta e sete anos depois, me encanto com o encontro de três gerações em uma mesma paixão: Mário, Chico e eu. Três paulistanos branquelos, de olhar estrangeiro, arrebatados pelo axé, pela cultura e pela tradição desta terra. A paixão se repete e não se esgota. A Bahia segue sendo cantada, narrada, descrita e estudada. Mil e uma noites, nas quais tudo é verdade. Ou não. Nada, ou tudo, é contraditório. Excludente. O que parece clichê não o é, na medida em que a Bahia não cabe em rótulos, nem cabe em si. O barroco convive com a simplicidade nas ruas do Pelourinho. A bossa nova do baiano João faz ponte para a Tropicália de Gil, Caetano e Tom Zé. O samba de roda do Recôncavo para todo o sempre repercutirá na Praça Onze, deixando o Rio e o samba do Brasil mais baiano. O canto desta cidade é seu, é meu, é nosso. Daniela Mercury tem razão. “O toque do afoxé e a força de onde vem ninguém explica”. É assim. É axé. É amor.

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