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Ópera Baiana Lídia de Oxum

Os mestres baianos Ildásio Tavares e Lindembergue Cardoso deram vida a Lídia de Oxum. Um escreveu, o outro musicou e o que Grande Otelo sonhou se realizou!


Por Marília Simões


A ópera é um espetáculo cênico que reúne a arte do canto, da declamação e da dança. Uma performance plural que exige habilidades técnicas do seu elenco, em geral, numeroso. Uma interface de teatro e música, com interpretações simultâneas.


A ópera baiana “Lídia de Oxum” foi criada para os negros. Baseada na peça “O Barão de Santo Amaro”, de autoria do baiano multidimensional Ildásio Tavares (1940 – 2010), poeta, escritor e professor encantado pela Bahia, por suas crenças e por seu povo que tanto representou e valorizou em suas obras literárias. Esta é a parte textual da ópera, chamada de libreto. A parte musical foi composta por Lindembergue Cardoso (1939 – 1989), um dos maiores nomes da música erudita baiana, autor de mais de uma centena de obras.


A história dessa ópera começa no final da década de 1970, com uma queixa do ator Grande Otelo (1915 – 1993) ao romancista Ildásio Tavares de que o teatro brasileiro era carente de textos para negros. O autor foi desafiado a escrever uma peça para ele encenar. A missão foi dada e muito bem cumprida!


Ildásio já tinha uma semente de vontade plantada para escrever algo sobre a luta do negro pela liberdade no Brasil e encontrou provocação e motivação para colocar a ideia no papel e dar vida a ideais, em forma de enredo e personagens.


Em 1986, depois de 16 anos, a peça estava pronta para debutar. As tentativas de encená-la não vingaram. Em 1987, em um encontro casual entre o escritor e o músico, foram trocadas ideias e eles chegaram ao consenso de que ambos gostariam de fazer uma ópera. Uma ópera negra, em homenagem ao centenário da Abolição da Escravatura que seria comemorado no ano seguinte.


“Sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só. Mas sonho que se sonha junto é realidade”, já cantava o maluco-beleza Raul Seixas. E, assim, a ópera baiana “Lídia de Oxum” se tornou um sonho real!


Uma realidade que foi apresentada pela primeira vez em 1994, no palco principal do Teatro Castro Alves, e é considerada a primeira montagem do tipo no Brasil, em língua portuguesa, que trata da temática afro-brasileira. A primeira ópera baiana!


Em maio de 1995, foi encenada pela segunda vez, ao ar livre, às margens da Lagoa do Abaeté, em Salvador, para um público de cerca de 30 mil espectadores. Um projeto ousado e arrebatador! Em seguida, a ópera foi apresentada em diversos palcos brasileiros. “Lídia de Oxum” foi um espetáculo criado por uma causa, para causar, para ficar, para fazer história. E cumpriu todos os seus papéis.


Bodas de Prata da criatura. Bodas de Carvalho dos criadores

Em 2019, em homenagem aos 80 anos de nascimento dos seus criadores, a criatura – a ópera baiana “Lídia de Oxum”, depois de 25 anos da sua estreia – voltou ao palco principal do Teatro Castro Alves para uma nova encenação. Proporcionando a uma nova geração a oportunidade de acompanhar essa megaprodução que tanto nos orgulha por ser baiana. Sim, nós temos uma ópera para chamar de nossa!


De pai para filhos

Os filhos de Ildásio Tavares, Ildázio Tavares Júnior e Gil Vicente Tavares, assumiram, respectivamente, a coordenação geral e a direção artística do espetáculo, apresentado entre os dias 21 e 23 de novembro de 2019. Logo após o dia 20 de novembro, data em que se celebra o Dia da Consciência Negra.


“Coordenar ‘Lídia de Oxum’ sempre foi um sonho para mim e, acima de tudo, um misto de  promessa/desafio feito ao meu saudoso e brilhante pai, no dia 31 de outubro de 2010, quando em um derradeiro momento, o vendo partir, disse a ele que sim, que eu não pouparia esforços para fazer ‘Lídia de Oxum’ acontecer!”, conta Ildázio Júnior sobre o seu sonho, também realizado. Um sonho que começou a ser desenhado e planejado por ele em 2014. Foram cinco anos de gestação para “Lídia de Oxum” renascer. E ela renasceu recheada de Axé!


Uma superequipe de 200 pessoas trabalhou para que oito solistas, além do coro, a Orquestra Sinfônica da Bahia, o corpo de balé e a percussão subissem ao palco, fazendo o enredo ganhar vida durante quase duas horas de apresentação. “É um espetáculo com um cunho histórico, com contribuição para dignificar a cultura afrodiaspórica - tão importante para a formação do povo brasileiro, da cultura brasileira, da identidade de um país que, ainda oficialmente, se nega a perceber-se colorido, em todos os seus matizes de cor e gênero”, define Gil Vicente Tavares.


E ele completa: “É uma alegria imensa estar com o meu irmão, junto a uma equipe incrível e diversa, levando adiante a obra do nosso pai. Seria bem melhor que estivéssemos montando esta ópera com uma perspectiva histórica, como uma advertência da vergonha que o país já foi, para que aprendêssemos com os nossos erros e não permitíssemos jamais que algo parecido retornasse. Um pouco como faz a Alemanha em relação ao Nazismo. Mas, infelizmente, não prestamos contas à história. Montar ‘Lídia de Oxum’ é denunciar, agora, a marginalidade forçada do negro, a sua falta de acesso à educação, ao trabalho, aos cargos políticos. É sentirmos que ainda somos escravocratas, racistas, e estamos em um país que elegeria o Barão de Santo Amaro, jamais Lourenço e muito menos Tomás de Ogun”.


É história, é cultura, é política, é arte, é espetáculo, é ópera, é Bahia. É “Lídia de Oxum” dando oportunidade para a classe artística baiana! Audições foram realizadas para a composição do elenco da ópera. A cantora Margareth Menezes interpretou Lídia de Oxum na década de 1990. A Lídia de Oxum de 2019 ficou sob a responsabilidade da cantora Irma Ferreira, graduada e mestre em Música pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). “A ópera ‘Lídia de Oxum’ é mais um passo que nós, cantores líricos negros da Bahia, damos dentro de um, ainda longo, processo de ocupação e apropriação do protagonismo na cultura operística de Salvador. Representar a Lídia de Oxum foi um grande presente; trata-se de uma mulher forte que, por ideologia, é muito mais do que vemos no espetáculo”, comenta Irma.


Quarteto de maquiadores


Quatro profissionais ficaram responsáveis pela maquiagem do elenco. Anne Costa, 31, fez parte da equipe. Ela atua há sete anos no ramo e nunca tinha trabalhado para uma ópera. Até então, a sua experiência com maquiagem artística tinha sido para peças de teatro e espetáculos circenses. Anne considera que as linhas de cosméticos, hoje, já oferecem de forma satisfatória produtos suficientes para a pele negra, contribuindo para a qualidade estética do trabalho. “Venho atuando na maquiagem desde uma época em que apenas as marcas profissionais davam opções mais diversificadas de produtos para a pele negra. E apenas algumas delas existiam no mercado de Salvador. Comecei sem ter produtos que realmente atendessem a esse público, havendo a necessidade de importá-los, tornando também mais caro o serviço. Nos últimos 10 anos, as marcas mais acessíveis evoluíram muito na tecnologia, tornando mais populares as cores mais diversas”, analisa Anne.


Cícero Allouza, 32, foi outro maquiador no espetáculo. No mercado há seis anos, ele também nunca tinha trabalhado para uma ópera e vê com bons olhos o crescimento e a consolidação do mercado de maquiagem em Salvador, sobretudo na área das makes conceituais. “A maquiagem vem ganhando um espaço enorme e hoje é possível encontrar em nossa cidade produtos para fazer todo tipo de efeito. Antes, eu precisava trazê-los de fora, às vezes de São Paulo. Era difícil encontrar aqui na Bahia produtos para efeitos tão específicos, mas hoje eu acredito que isso não é mais um problema”, declara o profissional que se sente realizado com o que faz.


“A experiência do trabalho para a ópera ‘Lídia de Oxum’ foi muito empolgante, pois nos proporcionou enxergar a nossa arte por outra perspectiva. Maquiar para um espetáculo que acontece em um teatro grande como o Castro Alves requer uma análise completa do resultado. Depois de tudo pronto, temos que ir para que o público veja como ficou o resultado no palco”. Cícero Allouza, maquiador


“Quando Ildázio Jr e Gil Tavares me convidaram para fazer esse trabalho eu fiquei fascinado. Porque ópera é um lugar elitizado. E o que me fascinou foi ver uma composição erudita galgada em bases populares. Uma ópera brasileira, negra, em português, com pequenos trechos em iorubá. É incrível! Uma obra como essa, encenada, revelando os problemas de identidade da classe social opressora, me deixa esperançoso. Eu trabalho há mais de 30 anos com teatro e com óperas, também fora do Brasil. Na Romênia, por exemplo, tive a oportunidade de trabalhar com óperas apresentadas nas ruas, nas praças públicas; e lá o público prestigia. Então, a minha esperança com um trabalho desse tipo, com um libreto de Ildásio Tavares, com a valorização da cultura negra, na qual os tambores e os atabaques falam, é que a obra seja acessível para todos”. Márcio Medina, cenógrafo da ópera


“Lídia é a beleza e a força, é o amor e a razão, é a voz que acalma, mas também a que grita por guerra. Não se enganem, pois a fragilidade não lhe é uma virtude. Lídia é de Oxum.” Irma Ferreira, cantora que faz Lídia de Oxum